Desculpe, o altar já tem dono
Desculpe, o altar já tem dono
Há uma espécie de idolatria que não precisa de imagens.
Ela pode vestir terno/vestido, carregar uma Bíblia, subir ao púlpito, cantar canções de adoração e até falar o nome de Jesus o tempo inteiro.
É uma idolatria mais sofisticada.
Não se ajoelha diante de uma estátua.
Ajoelha-se diante do próprio reflexo.
E talvez uma das formas mais perigosas de egocentrismo seja aquela que consegue se esconder dentro do ministério.
Porque é possível começar servindo a Deus e, pouco a pouco, começar a servir ao próprio ego.
É possível começar querendo glorificar Cristo e terminar querendo ser reconhecido.
É possível começar com um chamado e terminar construindo uma plataforma.
É possível subir ao altar para oferecer a vida e, sem perceber, começar a desejar que o altar nos ofereça aplausos.
E é justamente aí que precisamos parar.
Porque existe uma frase que o ministério precisa ouvir de tempos em tempos:
“Desculpe, o altar já tem dono.”
E o dono não somos nós.
Quando o chamado começa a alimentar o ego
Existe algo profundamente bonito em ser usado por Deus.
Ser instrumento nas mãos do Senhor é um privilégio.
Ver vidas sendo alcançadas, pessoas sendo restauradas, famílias sendo transformadas e perceber que Deus nos permitiu participar de alguma maneira daquilo é algo que emociona.
O problema não está em sermos usados.
O problema começa quando passamos a acreditar que somos nós quem fazemos acontecer.
Quando o instrumento começa a desejar a glória que pertence ao músico.
Quando o mensageiro começa a se considerar mais importante do que a mensagem.
Quando o servo começa a se comportar como dono.
E isso pode acontecer muito devagar.
Primeiro queremos apenas servir.
Depois gostamos de ser reconhecidos.
Depois começamos a esperar reconhecimento.
Depois nos ressentimos quando ele não vem.
Depois nos incomodamos quando outra pessoa recebe aquilo que esperávamos.
E, quando percebemos, já não estamos apenas servindo.
Estamos defendendo nosso espaço.
Talvez seja por isso que Jesus tenha sido tão insistente ao falar sobre humildade, serviço e renúncia.
Porque Ele sabia que o coração humano tem uma inclinação perigosa:
transformar até mesmo coisas santas em instrumentos para alimentar a própria vaidade.
A síndrome do “sem mim, não funciona”
Existe uma frase que pode revelar muito sobre o estado do nosso coração:
“Se eu sair, isso não funciona.”
Talvez funcione.
Talvez Deus esteja apenas esperando que você compreenda que a obra nunca foi sua.
Nós somos importantes, mas não somos indispensáveis.
Deus nos chama, nos capacita e nos usa, mas Ele não fica limitado às nossas mãos.
A obra é dEle.
A igreja é dEle.
As pessoas são dEle.
Os dons são dEle.
O chamado é dEle.
O altar é dEle.
Tudo continua pertencendo a Cristo.
Nossa maior derrota ministerial talvez não seja quando perdemos uma posição.
Talvez seja quando acreditamos que não podemos ser substituídos.
Porque, quando nos tornamos incapazes de imaginar a obra acontecendo sem nós, já não estamos falando apenas de zelo.
Estamos falando de ego.
Ego disfarçado de responsabilidade.
Ego disfarçado de experiência.
Ego disfarçado de “ninguém faz como eu”.
Ego disfarçado de “eu só quero o melhor para a igreja”.
Às vezes, queremos tanto preservar aquilo que fazemos que esquecemos que Deus também pode levantar outras pessoas.
E existe uma maturidade espiritual muito grande em preparar alguém para ocupar o nosso lugar.
O líder imaturo concentra tudo em si.
O líder maduro prepara sucessores.
O líder imaturo precisa ser necessário.
O líder maduro deseja que a obra continue mesmo quando ele não estiver mais nela.
Quando o altar vira espelho
O altar deveria ser lugar de entrega.
Mas podemos transformá-lo em espelho.
Subimos para falar de Cristo, mas esperamos que olhem para nós.
Cantamos sobre a grandeza de Deus, mas queremos ouvir o quanto somos bons.
Pregamos sobre humildade, mas nos ofendemos quando não somos convidados.
Falamos sobre servir, mas queremos posição.
Falamos sobre renúncia, mas não aceitamos perder espaço.
Falamos sobre amor, mas competimos.
Falamos sobre graça, mas guardamos ressentimentos.
Falamos sobre Cristo, mas, silenciosamente, queremos que o ministério seja conhecido pelo nosso nome.
E talvez essa seja uma das perguntas mais desconfortáveis que um cristão possa fazer:
“Se ninguém soubesse que fui eu, eu ainda faria?”
Se ninguém soubesse quem pregou aquela mensagem, você ainda a prepararia com o mesmo zelo?
Se ninguém soubesse que foi você quem ajudou, você ainda ajudaria?
Se outra pessoa recebesse os aplausos por algo que você fez nos bastidores, você conseguiria permanecer em paz?
Se alguém fosse escolhido para aquilo que você desejava, você conseguiria celebrar?
Se a resposta for não, talvez seja hora de voltar ao altar.
Não para ocupar o centro.
Mas para desocupar o centro.
Jesus nunca nos chamou para sermos o centro
O Evangelho não é uma história sobre nós.
Essa talvez seja uma das maiores confusões do cristianismo contemporâneo.
Transformamos a fé em uma narrativa na qual Deus existe para realizar nossos sonhos, proteger nossa reputação, resolver nossos problemas e confirmar nossas vontades.
Mas Jesus nunca disse:
“Negue os outros e siga a si mesmo.”
Ele disse:
“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.”
Negar a si mesmo não combina muito com uma fé construída ao redor do próprio ego.
O Evangelho não massageia o nosso orgulho.
Ele confronta.
Não coloca nosso nome no centro.
Coloca Cristo.
Não diz:
“Construa seu próprio reino.”
Diz:
“Buscai primeiro o Reino de Deus.”
Não diz:
“Faça a sua vontade e peça que Deus abençoe.”
Ensina-nos a orar:
“Seja feita a tua vontade.”
Existe uma diferença enorme entre pedir que Deus abençoe aquilo que queremos fazer e entregar a Deus aquilo que Ele quer fazer através de nós.
Quando servir deixa de ser sobre Cristo
Talvez devêssemos fazer uma avaliação sincera de nossos ministérios.
Não apenas perguntar:
“Quantas pessoas estão vindo?”
Mas:
“Para quem estamos apontando?”
Não apenas:
“Quantas pessoas me seguem?”
Mas:
“Quantas pessoas estão seguindo Jesus?”
Não apenas:
“Meu ministério está crescendo?”
Mas:
“Cristo está crescendo em mim?”
Porque crescimento ministerial não é necessariamente crescimento espiritual.
Uma agenda cheia não significa uma alma cheia.
Um púlpito ocupado não significa um coração rendido.
Muitos seguidores não significam maturidade.
Reconhecimento não significa aprovação de Deus.
E aplausos não são necessariamente frutos.
Às vezes, podemos construir algo que parece muito grande aos olhos das pessoas enquanto, por dentro, estamos ficando cada vez menores espiritualmente.
É possível ganhar uma plataforma e perder a presença.
É possível ganhar visibilidade e perder intimidade.
É possível defender uma imagem ministerial e perder o caráter.
E talvez seja por isso que precisamos voltar ao básico.
Jesus.
Jesus antes do ministério.
Jesus antes do título.
Jesus antes da posição.
Jesus antes da agenda.
Jesus antes do reconhecimento.
Jesus antes de nós.
O perigo de confundir identidade com função
Talvez uma das razões pelas quais temos tanta dificuldade em abrir mão de posições seja porque confundimos aquilo que fazemos com aquilo que somos.
“Eu sou pastor.”
“Eu sou líder.”
“Eu sou ministro.”
“Eu sou pregador.”
“Eu sou cantora.”
“Eu sou responsável por isso.”
Mas e quando a função termina?
Quem somos?
Quando o microfone é desligado?
Quando o cargo termina?
Quando outra pessoa assume?
Quando as pessoas deixam de nos procurar?
Quando ninguém mais precisa da nossa opinião?
Quando estamos sentados no último banco, sem ninguém saber quem somos?
Ainda sabemos quem somos em Cristo?
Essa é uma pergunta importante.
Porque quem sabe que é filho não precisa desesperadamente provar que é importante.
Quem sabe que pertence a Deus não precisa possuir o ministério.
Quem sabe de onde veio não precisa lutar para permanecer no palco.
Quem entende a graça consegue servir sem transformar serviço em identidade.
A obra de Deus não depende da nossa vaidade
Há uma libertação muito bonita quando entendemos que Deus não precisa do nosso ego para realizar Sua obra.
Ele pode usar quem quiser.
Pode levantar quem nunca imaginamos.
Pode chamar alguém que estava escondido.
Pode fazer nascer um ministério onde ninguém esperava.
Pode colocar outra pessoa no lugar que um dia ocupamos.
E isso não diminui o que Deus fez através de nós.
Pelo contrário.
Talvez a maior prova de que realmente amamos a obra seja conseguirmos vê-la continuar quando já não somos nós que estamos à frente dela.
João Batista entendeu isso.
Ao perceber que as pessoas estavam indo atrás de Jesus, ele não organizou uma campanha para recuperar seguidores.
Ele simplesmente declarou:
“É necessário que ele cresça e que eu diminua.”
Essa frase deveria estar escrita em algum lugar dentro de todo coração que serve.
Que Ele cresça.
Que eu diminua.
Que Ele seja visto.
Que eu desapareça.
Que Ele seja lembrado.
Que eu não precise ser.
Que Ele receba a glória.
Que eu fique com a alegria de ter servido.
Talvez seja hora de descer do altar
Talvez algumas pessoas precisem descer do altar.
Não porque Deus não as chamou.
Mas porque começaram a se colocar no lugar dEle.
Talvez precisem abrir mão da necessidade de controlar.
Da necessidade de serem consultadas.
Da necessidade de serem reconhecidas.
Da necessidade de terem razão.
Da necessidade de serem indispensáveis.
Da necessidade de que tudo aconteça pelas suas mãos.
Talvez seja hora de lembrar:
Nós somos apenas mordomos.
E mordomo não é dono.
Somos servos.
E servo não é senhor.
Somos instrumentos.
E instrumento não recebe a glória pela obra realizada.
Tudo aponta para Cristo.
“Desculpe, o altar já tem dono.”
Essa frase não deveria ser usada para afastar pessoas.
Deveria ser usada para lembrar a nós mesmos quem deve ocupar o centro.
Quando nosso ego quiser subir ao altar, precisamos dizer:
“Desculpe. O altar já tem dono.”
Quando nossa vaidade quiser ser reconhecida:
“Desculpe. O altar já tem dono.”
Quando quisermos transformar ministério em plataforma:
“Desculpe. O altar já tem dono.”
Quando quisermos competir:
“Desculpe. O altar já tem dono.”
Quando acreditarmos que somos insubstituíveis:
“Desculpe. O altar já tem dono.”
Quando nossa vontade estiver tentando ocupar o lugar da vontade de Deus:
“Desculpe. O altar já tem dono.”
E talvez essa seja uma das frases mais libertadoras que podemos aprender.
Porque quando entendemos que o altar não é nosso, também entendemos que não precisamos lutar para possuí-lo.
Podemos servir.
Podemos sair.
Podemos voltar.
Podemos ensinar.
Podemos aprender.
Podemos começar.
Podemos terminar.
Podemos ser vistos.
Podemos ser esquecidos.
Porque nossa identidade não está no altar.
Nossa identidade está em Cristo.
O verdadeiro Evangelho não nos chama para sermos adorados.
Chama-nos para adorar.
Não nos chama para construirmos um nome.
Chama-nos para anunciarmos um Nome.
Não nos chama para sermos o centro.
Chama-nos para apontarmos para o Centro.
E o Centro tem nome.
Jesus.
Por isso, antes de subir ao altar, antes de pegar o microfone, antes de assumir uma liderança, antes de publicar mais uma palavra, antes de defender nosso espaço, talvez devêssemos fazer uma oração simples e profundamente necessária:
“Senhor, não permita que eu roube para mim aquilo que pertence somente a Ti.”
Porque o altar já tem dono.
E nós?
Nós somos apenas convidados a servir aos pés dEle.
Que Deus te abençoe, e que seu coração e mente esteja voltado a sempre fazer a vontade do Pai.
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Fiquem com Deus e até a próxima.
Pra Adriana Faria

benção de palavra, quanto ensinamento
ResponderExcluirrealmente Cristo seja o centro sempre
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